Eu fui traída.
Desde que eu li o post da amiga que disse ter um amante, pensei em compartilhar o meu "outro lado da história" com vocês.
Quando eu conheci meu marido tinha acabado de sair de um relacionamento cabuloso e estava - acho que pelo alívio de ter saído desta furada - muito bem. Leia-se fisicamente e psicologicamente. Assim, ele conheceu uma pessoa alegre, de bem com a vida, vaidosa, sempre "nos trinques". Um ano depois estávamos casados e felizes.
Tudo corria dentro da normalidade. Mas eu tenho que confessar que depois do casamento eu desleixei geral, embaranguei, fiquei cheia de preguiça, era capaz de ficar o domingo inteiro de pijama e chinelão... Eu, que sempre fui sempre muito dinâmica, comecei a ficar mais preguiçosa... Coisa que acontece com uma porção de mulheres que acham que estar casada é garantia... Ledo engano...
No final do ano passado meu marido viajou a trabalho. Deveria ficar três dias e acabou passando o final de semana também. Até aí achei normal. Às vezes, no trabalho dele, é necessário. Ele voltou mais magro e bem disposto. Me disse que teria que ir sempre para aquela cidade porque os negócios por lá seriam bons. Tudo dentro da maior tranquilidade.
Um dia, olhando o orkut dele depois de séculos sem entrar nem no meu, vi que na página ele não era casado, amigos visitavam sempre e - o que me intrigou - meu testemunho tinha sido apagado e no lugar tinha um testemunho de uma menina daquela cidade. Fiquei com uma família de pulgas atrás da orelha e entrei na página da dita. Na álbum dela havia um ponto de interrogação com uma frase breguinha do tipo "mesmo sem poder dizer nada, você sabe quem você é e o que representa para mim".
Digamos que a família de pulgas virou um pequeno vilarejo e passei a "acompanhar mais de perto" o orkut dele e dela.
Ele sempre viajava, coisa normal para a profissão dele. Um final de semana, dois ou três meses depois, ele me disse que tinha uma viagem para Brasília em um final de semana. Coincidentemente vi no orkut da menina que ela também ia em recados trocados entre ela e uma amiga, que ela ia em um show tipo micareta e ficaria no mesmíssimo hotel que meu marido.
Entrei em um dilema enorme. Resolvi jogar verde e disse que tinha ficado sabendo do show (eu odeio micareta) e ele perguntou se eu queria ir. Disse que não. Ele insistiu se eu queria acompanhá-lo. Disse que iria visitar minha mãe que mora em uma cidade aqui perto.
Ele foi sozinho e eu comprei um passagem de avião para Brasília para o sábado. Minha idéia era pegar no flagra, eu tinha muita certeza do que estava acontecendo. Ele me ligou tão logo chegou lá para falar que estava tudo bem. Eu liguei na sexta à noite várias vezes e ele simplesmente não atendeu. Me ligou bem mais tarde e perguntou se estava tudo bem, que tinha cochilado, não escutou o telefone. Não consegui agir normal, mas me mantive calma. No sábado, vi no orkut da dita cuja que "no carro do Fulano - meu marido - ela e a amiga tinham falado horrores de outra amiga", fotos dela em uma churrascaria com o celular, os óculos escuros, o cigarro e o isqueiro do meu marido em cima da mesa, uma foto dela dentro do carro dele, na piscina do hotel. A passagem fervia na minha frente, mas eu me segurei. Peguei o telefone mesmo e liguei dizendo que uma amiga que mora em Brasília tinha visto ele na churrascaria com duas moças. Ele gelou e disse que era mentira, aí eu abri o jogo e falei do orkut, das fotos, das coisas dele em cima da mesa. Ele ficou bravo, depois ficou mudo, depois disse que eram apenas amigas, que nada a ver. Desliguei o telefone falando que segunda feira teríamos uma conversa séria.
Não atendi mais o telefone, não liguei, tentei com todas as forças me acalmar. Segunda ele chegou com cara de cachorro que caiu da mudança e tivemos uma conversa. Eu disse tudo o que sentia e como me sentia um pouco abandonada há um tempo. Falei que não saíamos, não nos divertíamos como antes, que eu me sentia deixada de lado na relação, falei do orkut, de como ele não era casado, das fotos da menina, mostrei as fotos das coisas dele do lado dela, da cara de felicidade que me machucava. Disse que não tínhamos um contrato de propriedade e que se ele estava apaixonado, ou coisa que o valha, que eu sairia da nossa relação na boa. Ele disse que eu entendi tudo errado, que não tinha nada a ver.
Eu saí de perto e fui para o quarto. Me olhei no espelho, me achei um lixo, acima do peso, com o cabelo feio, me acabei de chorar. A minha impressão era a de que o chão tinha se aberto na minha frente. Voltei para a sala e ele estava lá. Pedi para que fosse dormir em um hotel. Eu não aguentaria olhar para ele por uns dias.
Ele voltou para casa depois de uns dias. Eu me matriculei em uma academia, fui no cabelereiro e procurei minha antiga analista, porque era incrível o misto de revolta, raiva e amor que me invadiam. Eu deveria me separar, ele me traía - ele continuou com a outra - mas eu não queria, porque o amava. Uma coisa que ela me disse foi que um casamento era feito de eternas reconquistas de ambos os lados, eu tinha parado de reconquistá-lo, estava confortável com a situação.
Nós começamos a brigar muito neste tempo. Mas a análise aos poucos foi me ajudando a ver que se eu o amava tinha que brigar.
Depois de um tempo deste final de semana em Brasília encontrei uma mensagem dela no celular dele. Peguei a conta telefônica dele, vi o número do telefone dela e liguei. Acho que nunca fui tão educada com uma pessoa. Pelo telefone deu para perceber que não era uma pessoa muito instruída. Perguntei qual o relacionamento dela com meu marido, disse que ela deveria ser uma boa pessoa porque o Fulano nunca se relacionaria com quem não fosse, falei que o amava muito e quem dividia cama, casa, contas, cachorro, preocupações era eu e que o "oba oba" de hotel de luxo e restaurante caro não era o dia-a-dia. A menina não sabia o que falar, acho que ficou meio catatônica. Eu agradeci por ela ter me escutado, que ela não havia me traído porque nunca tinha sequer a visto, que ela não passava de nada para mim, agora ele sim, era importante na minha vida.
Naquele dia mesmo tive uma conversa definitiva com o Fulano. Disse que liguei para a dita, disse que sabia de tudo e não adiantava ele negar. Eu não queria brigar mais, não queria viver naquele inferno que tinha virado nossa vida, eu o amava e respeitaria qualquer que fosse sua decisão. Tive por resposta um longo silêncio. Saí de perto. Aprendi que qualquer pessoa precisa digerir as coisas bem e eu daria o tempo que fosse necessário.
Depois de uns dias ele me mandou um e-mail que a moça havia mandado para ele dizendo que eu havia ligado, sido muito educada, que não era justo comigo tudo aquilo. Ela exigia que ele se decidisse. No final ele escrevia que naquela noite conversaríamos.
Voltei para casa mais cedo, me vesti o melhor que pude, abri um vinho e esperei. A nossa conversa foi boa e resolvemos colocar uma pedra sobre aquele assunto. Ele nunca mais se encontrou com a menina e estamos casados até hoje.
Eu não perdoei o meu marido pela traição. É o tipo da coisa que não se perdoa. Eu passei por cima de tudo o que aconteceu em nome do amor que eu sentia pela nossa vida em comum, por ele e por mim mesma principalmente. Nada foi feito de cabeça quente. Eu me descabelei, chorei sozinha e sofri, mas cresci também com esta história e saí dela muito melhor que antes.
Não tenho certeza que isto não vai acontecer de novo. Não sei se faria a mesma escolha de continuar apesar de. São respostas que eu não tenho. Tenho, por outro lado, a certeza do amor dele por mim. Para a pessoa que escreveu sobre amar duas pessoas ao mesmo tempo digo que é possível que se ame dois, três, dez. Cada um pelo que é, pelo que representa, talvez pelo sexo, pelo que a pessoa oferece, sei lá, mas a possibilidade existe.
Eu sei porque meu marido me traiu. Ele encontrou em outra exatamente o que eu havia perdido no casamento. Eu havia me acomodado, perdido muitas referências. Cinquenta por cento da culpa da traição dele era minha. Eu já não era a mesma pessoa por quem ele havia se apaixonado.
Reconquistei meu marido e hoje vivemos milhões de vezes melhor que antes.